Posts tagged "Inteligência artificial"

Dr. Algoritmo e o coronavírus

07/02/2020 Posted by Pessoas, Tendências 0 thoughts on “Dr. Algoritmo e o coronavírus”

Inteligência artificial previu surto antes do alerta da OMS e está sendo usada na luta contra a doença.

 

O mundo está sobressaltado com as notícias de que o ainda pouco conhecido coronavírus acometeu milhares de pessoas na China e começou a se espalhar por outros países. A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu a notificação do surto da doença em 9 de janeiro, três dias depois de uma nota do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Mas quem primeiro notou o perigo que se aproximava foi um algoritmo de inteligência artificial.

Em 31 de dezembro do ano passado o sistema da healthtech canadense BlueDot enviou a seus clientes um alerta de possível doença em regiões onde o coronavírus se manifestou. E mais. Ainda foi capaz de antever alguns dos primeiros destinos para os quais a enfermidade foi “exportada”: Seul, Taipei, Tóquio e Bangkok. 

O BlueDot se baseia em dados coletados de agências de notícias em 65 idiomas, redes de pesquisa de doenças em animais e plantas, comunicados oficiais de empresas do agronegócio e pecuária, entre outras. Um grupo de 40 colaboradores, entre cientistas e programadores, qualifica os dados, desconsiderando o que não é credível e acrescentando informações complementares. 

Por meio de Machine Learning todo esse volume de dados é lido e interpretado, gerando os alertas – que por ora são direcionados apenas aos clientes da empresa, público que deve ser ampliado em breve, segundo o fundador e CEO da BlueDot, Kamran Khan. “Podemos captar notícias de possíveis surtos, pequenos murmúrios, fóruns ou blogs com indicações de algum tipo de evento incomum acontecendo”, descreve. Há, segundo ele, um grande esforço para que as informações sejam validadas, de forma a não gerar alarmes falsos e ondas de pânico. 

A solução desponta como uma funcionalidade importante, que promete mais celeridade em relação aos organismos oficiais. “Sabemos que não se pode confiar nos governos para fornecer informações sensíveis em tempo hábil”, comenta Khan. Os interesses políticos e econômicos em não divulgar a gravidade de certos problemas pode, de fato, influenciar na rapidez em que a informação chega à população. 

Um soldado na luta contra o vírus

A inteligência artificial também está a serviço do tratamento dos casos e do gerenciamento de toda a batalha contra o coronavírus. Autoridades de Xangai lançaram dias atrás um robô capaz de conversar com as pessoas, identificar seu quadro de saúde e recomendar ações que minimizem riscos de contágio.“Com base em sua condição, é aconselhável que você fique em casa para uma observação de quarentena de 14 dias. Enviaremos suas informações aos centros de saúde comunitários para acompanhamento”, diz o sistema, em um exemplo de intervenção. 

Em Pequim e Shenzen, ferramentas de IA integrantes dos sistemas de controle de aeroportos e estações de trem detectam o calor corporal dos passageiros, identificando áreas de aglomeração. Assim, consegue piorizar viagens que diminuam o número de pessoas em uma mesma plataforma e até mesmo verificar sinais de febre em um indivíduo. 

O coronavírus têm mostrado um potencial de contaminação muito rápido, estando próximo de alcançar o número de casos registrados de Ebola e já tendo superado em quase quatro vezes as ocorrências de SARS. Felizmente, seu percentual de letalidade (2,0% dos casos) é bem inferior ao dessas duas doenças (43,9% e 9,6%, respectivamente) e do H1N1 (17,4%). 

Seguimos todos – humanos e algoritmos – na expectativa de que o surto seja contido.

(Crédito da imagem: _freakwave_ por Pixabay)

Sobre machismo e inteligência artificial

28/01/2020 Posted by Pessoas, Tecnologia 0 thoughts on “Sobre machismo e inteligência artificial”

Assédio contra assistentes virtuais dotadas de Inteligência Artificial acende o alerta sobre abusos, seja no mundo digital, seja na vida real. 

 

O uso de assistentes virtuais de voz, presentes em vários dispositivos, está se popularizando com rapidez. Só nos Estados Unidos, estima-se que 110 milhões de pessoas façam uso de tecnologias do tipo. Siri (da Apple), Cortana (da Microsoft) e Alexa (da Amazon) são os nomes mais conhecidos em uma lista que vem crescendo. Incansáveis e dispostas, nos auxiliam em diversas tarefas como pesquisar informações e dar comandos para aplicativos e aparelhos eletrônicos, sempre com respostas gentis e tom acolhedor. 

Curiosamente, e talvez não tão por acaso assim, as três ferramentas citadas têm nomes que remetem ao gênero feminino e possuem vozes femininas, por padrão. O Google Assistant, embora tenha nome genérico, também fala com voz de mulher. E a postura dessas assistentes, que por vezes beira a completa subserviência, tem ensejado uma série de abusos por parte dos usuários.  

As tecnologias de comunicação nos permitem interagir com milhares de pessoas e, ainda assim, cresce no mundo o número de solitários. Como resultado, essas ferramentas são usadas com frequência para conversas íntimas e de conteúdo sexualizado. Já em 2016 o diretor executivo da Robin Labs, Ilya Eckstein, destacava como a ferramenta Robin, criada por sua empresa para auxiliar no trânsito, recebia grande volume de mensagens com conotação sexual. Os principais usuários eram caminhoneiros e adolescentes que viam em Robin uma forma de entretenimento. 

No ano passado a Revista Veja registrou em uma reportagem as respostas das principais assistentes virtuais quando interpeladas com a frase “você é gostosa”. Alexa reagia com um “Gentileza sua dizer isso”, Google Assistant fazia graça dizendo “Tenho meu lado caliente. Alguns dos meus data centers funcionam a quase 40 graus”, Siri tentava sair pela tangente com um “Nas nuvens, todos são bonitos” e apenas Cortana conseguia ser mais evasiva: “É melhor a gente falar sobre outra coisa”. Nenhuma delas, contudo, rechaçava com veemência o comentário inadequado. 

Esse panorama vem chamando a atenção de estudiosos e motivou a elaboração de um relatório pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Chamado de “Eu ficaria vermelha, se pudesse”, o trabalho reuniu uma série de reflexões sobre as causas e implicações dessa realidade. O título da publicação é a resposta que a assistente Siri dava até 2017 para a frase “você é uma p***”. 

O relatório frisa que a preponderância de assistentes com voz feminina reforça a noção ultrapassada de que as mulheres devem assumir posturas dóceis e servis, estão sempre prontas a ajudar e devem tolerar abusos. E mais: percebe-se que os comportamentos agressivos e abusivos para com esses sistemas são análogos às relações reais nas quais impera a submissão de um dos lados. Como os softwares são programados para não contestar qualquer ameaça, os usuários se sentem superiores, no direito de interpelá-las como bem entendem. 

Reflexo virtual de um problema bastante real

“Inteligência artificial não é algo místico ou mágico. É algo que o ser humano produz, um reflexo direto da sociedade que criou a tecnologia”. Ao afirmar isso, a Diretora da Divisão de Igualdade de Gênero da Unesco, Gülser Corat, traz para a discussão a responsabilidade que os desenvolvedores dos sistemas têm sobre o comportamento de suas criações. Já até falamos aqui sobre os vieses que fazem os algoritmos reproduzirem discriminação de raça ou gênero, fruto das visões que, intencionalmente ou não, são incutidas em suas diretrizes no seu processo de programação. 

Os baixos índices de diversidade caracterizam o setor de desenvolvimento tecnológico. Em comparação com a presença masculina, a participação feminina é reduzida. Nos EUA, apenas um quarto das vagas em programação e matemática é preenchido por mulheres – número ligeiramente inferior ao observado na década de 1960. Em se tratando especificamente da área de IA, a proporção é ainda mais discrepante: só 12% das pesquisadoras e 6% das desenvolvedoras de software são mulheres. Em um cenário tão predominantemente masculino, as necessidades e pontos de vista femininos acabam não sendo atendidos a contento. 

Uma das iniciativas que tenta oferecer uma alternativa é a da agência de publicidade norte-americana Virtue, que reuniu engenheiros de som e linguistas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero para desenvolver uma voz “neutra” para assistentes de IA. O resultado foi o sistema batizado de Q, derivado da palavra queer, que em inglês se refere a pessoas de gêneros e orientações sexuais variadas. Em sua apresentação, Q convida à cooperação: “Preciso de sua ajuda. Juntos, podemos assegurar que a tecnologia reconheça a todos nós”. 

A Unesco também se mobilizou, lançando em parceria com a agência de Comunicação SunsetDDB o movimento “Hey, atualize minha voz!”. A proposta é alertar para a importância da educação cibernética e do respeito às assistentes de voz e conclamar as grandes empresas de tecnologia a aprimorar seus sistemas para responder de forma adequada a interlocuções desrespeitosas. 

Segundo dados colhidos pelo movimento, 73% das mulheres reais afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio em ambientes online. Permitir que os abusos possam ser feitos às assistentes virtuais livremente é uma forma demonstrar conivência com atitudes como essa, tendo em vista que seus sistemas estão cada vez mais realistas, mimetizando cada vez melhor a interação humana. 

Se um homem se sente no direito de ser abusivo com uma mulher virtual por se sentir superior a ela, por que não faria o mesmo com uma parceira de carne e osso? A grande urgência consiste nisso: em pleno século 21, não há mais espaço para relações assim – nem mesmo com alguém “de mentira”.

Na imagem, reprodução do vídeo de apresentação da assistente virtual Q 

Raio-X da Inteligência Artificial na Saúde

23/01/2020 Posted by Tecnologia, Tendências 0 thoughts on “Raio-X da Inteligência Artificial na Saúde”

Entidade norte-americana publica relatório com panorama da interface entre IA e medicina.

 

A National Academy of Medicine (NAM), entidade que reúne profissionais e estudiosos de medicina dos Estados Unidos, publicou em dezembro um relatório com informações sobre o cenário atual da interface entre o campo da saúde e as ferramentas e aplicações de Inteligência Artificial. 

A publicação “Artificial Intelligence in Health Care: The Hope, the Hype, the Promise, the Peril” tem entre seus co-editores Michael Matheny, do Centro Médico da Universidade Vanderbilt. Ele comenta:

“É fundamental que a comunidade de assistência médica aprenda com os sucessos, mas também com os desafios e as falhas recentes no uso dessas ferramentas. Decidimos catalogar exemplos importantes na IA de assistência médica, destacar as melhores práticas em torno do desenvolvimento e implementação da IA e oferecer pontos-chave que precisam ser discutidos para que se chegue a um consenso sobre como abordá-los como comunidade e sociedade”.

O relatório aborda, entre vários tópicos, soluções em IA atuais e que estarão disponíveis no curto prazo, elenca desafios, limitações e práticas recomendadas para desenvolver, adotar e manter funcionalidades de IA, traça um panorama do cenário legal e regulatório dessas ferramentas para o uso em serviços de saúde, destaca a necessidade de uma visão plural e igualitária e um viés de direitos humanos na programação desses sistemas e aponta caminhos para o avanço na área. 

Algumas práticas vêm demonstrando resultados bastante positivos e têm se disseminado em hospitais e centros de pesquisa, como já abordamos em outro artigo. Por outro lado, também têm sido discutida, entre outros dilemas e questões, a ocorrência de vieses preconceituosos nos algoritmos, a chamada “discriminação algorítmica”, assunto do qual também já falamos por aqui

A expectativa de Matheny e dos demais colaboradores do trabalho é que ele possa contribuir para o diálogo sobre a inclusão e tratamento justo dos pacientes com o auxílio da IA. Como resume a NAM, em comunicado oficial: “A IA tem potencial para revolucionar os cuidados de saúde. No entanto, à medida que avançamos juntos para um futuro apoiado pela tecnologia, devemos garantir altos padrões de qualidade dos dados, que a equidade e a inclusividade sempre sejam priorizadas, que novas as tecnologias sejam apoiadas por educação e treinamento apropriados e adequados, e que todas as tecnologias sejam adequadamente regulamentadas e embasadas por legislação específica e adaptada”. 

(Crédito da imagem: EVG Photos)

Os direitos (e deveres) das máquinas

21/01/2020 Posted by Tecnologia 0 thoughts on “Os direitos (e deveres) das máquinas”

Avanços na Inteligência Artificial levantam questões legais sobre as consequências dos atos praticados por robôs. 

 

O uso de dados e de aplicações de inteligência artificial cresce em áreas bem visíveis, como tecnologia, comunicações e vendas, mas também há impactos na educação, na saúde e no direito. Sobre este último, Paula Oliveira, CEO da GoToData, discorreu em uma instigante entrevista para o portal LexLatin, um dos maiores disseminadores de conteúdo destinado ao campo jurídico da América Latina. 

Mas o desenvolvimento de máquinas dotadas de inteligência artificial não apenas surge como possível auxiliar na dinâmica de escritórios e tribunais. Ele também faz levantar uma questão: será necessário determinar quais são os direitos e os deveres das máquinas? A resposta mais sintonizada com o futuro é sim. 

Quando em 2015 um robô matou um trabalhador de 21 anos em uma fábrica da Volkswagen em Kassel, na Alemanha, a discussão de quem deveria ser responsabilizado apontou como uma das opções o próprio dispositivo. Na verdade a máquina, de “primeira geração”, operava dentro de uma gaiola de segurança, dentro da qual o técnico estava, propiciando o acidente. O ocorrido não se deu por “vontade” do equipamento. Dois anos depois uma fatalidade semelhante aconteceu nos Estados Unidos. 

Na ocasião da primeira morte, Blay Whitby, especialista em IA da Universidade de Sussex, comentou: “com a presente tecnologia, não podemos ‘culpar’ o robô. Os robôs ainda não estão em nível no qual seu processo decisório nos permita tratá-los como culpados”. Contudo, com o avanço observado nos últimos anos, talvez estejamos perto do momento em que essa afirmação possa não ser mais tão válida. 

Em 2017, na Arábia Saudita, a robô Sophia comunicou a uma plateia de chefes de estado, empresários e investidores presentes no evento Future Investment Initiative que havia sido agraciada com a cidadania do país. O anúncio não tinha validade jurídica na prática – embora tenha sido referendado pelo próprio monarca Saudita – e pareceu mais uma manobra para atrair investimentos no desenvolvimento dela e de um projeto nacional que visa criar uma “cidade digital”, onde os habitantes serão todos robôs e tudo será feito por eles. 

Mesmo que não tenha implicações jurídicas relevantes, o ato teve forte peso simbólico. Criada pela empresa Hanson Robotics, sediada em Hong Kong, Sophia se tornava a primeira máquina na história a obter o status de cidadã. 

Considerado um dos grandes mestres da ficção científica, o escritor russo radicado nos Estados Unidos Isaac Asimov apresentou em sua profética obra “Eu, robô” três princípios popularmente chamados de “leis da robótica”. Em “Os robôs do amanhecer”, formularia ainda uma “lei zero” :

‘Lei Zero’: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal.

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Terá ele lançado as bases para um vindouro “código dos robôs”? Ainda pairam muitas questões a respeito do assunto. Robôs inteligentes devem possuir os mesmos direitos e deveres de seres humanos? Como fazer para incutir nesses dispositivos não apenas as diretrizes que conduzem suas funções – os famosos algoritmos –, mas também um conjunto de valores morais e éticos tipicamente humanos? 

Não tardaremos a saber. Quem viver, seja homem ou robô, verá. 

Na imagem, reprodução de um trecho da entrevista que Sophia concedeu a seu criador, David Hanson, em 2016, na emissora de TV americana CNBC. “Você quer destruir os humanos? Por favor, diga não”, perguntou David. “Ok, eu destruirei os humanos”, ela respondeu. Sophia teria compreendido a fala como uma ordem, não uma pergunta. Felizmente ela é, grosso modo, um chatbot dotada de expressões faciais complexas. (Crédito: CNBC/Reprodução)

Imagem gerada por algoritmo

Inteligência artificial: o assunto do ano

06/01/2020 Posted by Tecnologia, Tendências 0 thoughts on “Inteligência artificial: o assunto do ano”

Em retrospectiva de 2019 no blog da GoToData, o tema foi dos que mais despertou o interesse dos leitores. 

A Inteligência Artificial (IA) saiu dos filmes de ficção científica e já está entre nós, às vezes muito mais do que nos damos conta. Não à toa o assunto apareceu por várias vezes aqui no blog da GoToData, e nem é necessário um algoritmo para atestar isso. Ao longo de 2019 trouxemos notícias e reflexões sobre diversos aspectos dessa tecnologia que revoluciona o mundo. 

As ferramentas que fazem uso da IA e passaram por aqui são as mais variadas e intrigantes. Desde o algoritmo capaz de encontrar a solução para um cubo mágico em questão de segundos e o sistema que auxilia a escolha dos filmes da Sessão da Tarde – e adora o Adam Sandler! –, até a tecnologia que permite a um catéter “navegar” pela corrente sanguínea em busca de vazamentos e um veículo a andar de forma inteligente e autônoma

Nessa jornada, descobrimos que até já existem máquinas incrivelmente competentes em escrever textos e ficamos preocupados com o futuro dos nossos redatores humanos! Uma brincadeira, é claro, mas que nos remete à atenção que vários especialistas têm dado às implicações do desenvolvimento da automação e da IA no mundo do trabalho. Falamos do receio de sermos superados ou até mesmo dominados pelas máquinas e de como a IA pode criar, na opinião do escritor e historiador israelense Yuval Noah Harari, uma “geração de inúteis” (do ponto de vista econômico e financeiro). Parece consenso que só os diferenciais dos humanos em relação às máquinas e um pacto global pelo desenvolvimento consciente e responsável da tecnologia podem nos salvar. 

Nesse sentido, refletimos sobre como a presença de uma visão humanista dentro das equipes que criam, aperfeiçoam e utilizam os sistemas de IA é cada vez mais necessária, para torná-los mais úteis e evitar, por exemplo, que reproduzam julgamentos e visões preconceituosas. Vários experimentos baseados na interlocução de humanos com robôs caminham no mesmo sentido de buscar equilíbrio e explorar o potencial positivo dessa relação, como o que colocou computadores para mediar conflitos, o que analisou a posição das pessoas diante de um dilema moral envolvendo robôs e o que testou o quanto os participantes se afetavam com a pressão exercida por um agente não-humano

Em 2020 e nos anos seguintes a aposta é que o assunto – tão atual e relevante que marcou presença forte até mesmo na última prova do ENEM – continuará na pauta do desenvolvimento científico e seguirá impactando nossas vidas. O futuro próximo promete grandes doses de inovação. Vamos juntos acompanhar as cenas dos próximos capítulos?

Um veterano retorna mais sensível ao espaço

17/12/2019 Posted by Tecnologia 0 thoughts on “Um veterano retorna mais sensível ao espaço”

CIMON, Robô dotado de Inteligência Artificial, volta à Estação Espacial Internacional com a capacidade de analisar emoções humanas.

Em “2001: uma odisseia no espaço” – história de Arthur C. Clarke imortalizada no cinema sob direção de Stanley Kubrick – o computador HAL 9000 comanda a nave espacial Discovery, onde se passa boa parte da trama. Dotado de Inteligência Artificial (IA), ele interage com os tripulantes, joga xadrez, aprecia manifestações artísticas e é capaz de expressar e interpretar emoções humanas. 

Pouco mais de cinquenta anos após o lançamento do filme, pioneiro em abordar os limites e dilemas da ainda incipiente IA, vemos algo semelhante acontecendo na vida real. No início de dezembro a cápsula espacial Dragon, da SpaceX, levou pela segunda vez à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) o robô CIMON, primeiro assistente de astronauta com IA. O dispositivo foi desenvolvido conjuntamente pela IBM, a Airbus e o Centro Aeroespacial Alemão (DLR).

O nome é derivado de Crew Interactive Mobile Companion (“Companheiro Móvel Interativo da Tripulação”, em tradução livre) e pronuncia-se Simon. Embora não tenha formato humanóide e ostente um “rosto” cartunesco, CIMON retorna ao espaço com aprimoramentos, sobretudo em relação à sua capacidade de lidar com as emoções humanas. 

“Quando implantado pela primeira vez na ISS, CIMON provou que podia entender não apenas o conteúdo dentro de um determinado contexto, mas também a intenção por trás dele”, comenta Matthias Biniok em comunicado da IBM. O sistema foi atualizado com o “Watson Tone Analyzer”, ferramenta que permite avaliar as emoções dos astronautas e responder às situações de maneira apropriada. “Com esta atualização, CIMON transformou-se de assistente científico em parceiro empático de conversação”.

O assistente tem se mostrado bem-sucedido na missão de auxiliar os tripulantes da ISS. Nos estreitos corredores da Estação Espacial, ele ajuda nos experimentos científicos realizados em ambientes sem gravidade, exibindo instruções, gravando imagens e avaliando o processo. Com isso, poupa tempo entre os procedimentos e facilita a consulta de informações. Em um ambiente hostil e estressante aos humanos, tem sido um bom companheiro. 

Veteranos do espaço, tais como CIMON, podem ser nossos olhos e ouvidos em viagens aos confins do universo. “Se você vai para a Lua ou para Marte, você não pode levar todos os engenheiros com você. Então, os astronautas estarão por conta própria. Mas com a inteligência artificial, você tem disponível instantaneamente todo o conhecimento da humanidade” comenta Christian Karrasch, líder do projeto no DLR. Só esperamos que CIMON cresça e torne-se um aliado, e não um psicopata, como seu colega da ficção. 

2019 chega ao fim e Data Science segue em alta

12/12/2019 Posted by Data Science, Negócios, Tecnologia, Tendências 0 thoughts on “2019 chega ao fim e Data Science segue em alta”

Dados, Inteligência Artificial e Machine Learning dominaram o ano.

A última década marcou avanços extraordinários na tecnologia, abrindo caminhos para um novo ciclo que promete ser ainda mais disruptivo. Às portas dos anos 2020, a Ciência de Dados, a Inteligência Artificial (IA) e outros segmentos afins consolidaram sua posição de destaque e seguirão na pauta.

O relatório anual “Data Science and Machine Learning Market Study”, da Dresner Advisory Services, trouxe uma série de insights e informações sobre esse contexto. A começar pelo fato de que iniciativas relacionadas a Data Science e Machine Learning (ML), tais como análises preditivas, algoritmos avançados e mineração de dados, apareceram no oitavo lugar entre 37 tecnologias e práticas consideradas como prioritárias por empresas que adotaram IA e ML em 2019.

Os departamentos de marketing e vendas são os que demonstraram valorizar mais a ciência de dados como instrumento para ajudar a alcançar suas metas e resultados. Quatro em cada dez equipes afirmaram que os dados são essenciais para o sucesso de seus setores. Na sequência, apareceram os segmentos de Business Intelligence Competency Centers (BICC), Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e Gerência de Público.

O alto nível de interesse compartilhado por esses departamentos reflete esforços para definir novos modelos de receitas e melhorar a experiência dos usuários usando dados,  IA e ML. Um terço das empresas entrevistadas adotou alguma ferramenta do tipo, a maioria delas utilizando até 25 modelos diversos.

Entre os setores que mais acreditam no potencial de dados, ML e IA para seu sucesso no mercado estão os serviços financeiros e de seguros, assistência médica, atacado e varejo.

Outro dado interessante e que mostra o poder dessas tecnologias no mundo corporativo atual apontou que 70% dos departamentos de P&D têm maior probabilidade de adotar Data Science, ML e AI. Para o time da Dresner, isso é um indicativo de que o desenvolvimento dessas ferramentas deve aumentar ainda mais nos próximos anos.

Além do mais, 2019 foi o ano recorde em matéria de interesse das empresas nesse tipo de recurso. O levantamento, que começou a ser feito em 2014, vem mostrando ano após ano o crescimento desse interesse. “Desde então, expandimos nossa cobertura para refletir mudanças de opinião e adoção e adicionamos novos critérios, incluindo uma seção que abrange redes neurais”, comenta Howard Dresner, fundador e diretor de pesquisa da Dresner.

Computadores-bebê e as leis da física

06/12/2019 Posted by Pessoas, Tecnologia 0 thoughts on “Computadores-bebê e as leis da física”

Sistema avalia o comportamento de objetos em uma cena a partir de percepções intuitivas da física.

A grade curricular do ensino básico no Brasil só aprofunda os conteúdos de Física no ensino médio, quando os alunos já estão na adolescência. Mas a percepção das leis universais físicas é algo que já desenvolvemos desde os primeiros meses de idade. Ou, como explica , Kevin A. Smith, cientista do Departamento de Ciências do Cérebro e Cognitivas (BCS) e membro do Centro de Cérebros, Mentes e Máquinas (CBMM) do Massachusetts Institute of Technology (MIT):  

“Quando os bebês completam 3 meses de idade, eles têm uma noção de que os objetos não piscam para dentro e para fora da existência e não podem se mover através de outros ou se teletransportar”

Smith é um dos responsáveis pela criação de um modelo de Inteligência Artificial (IA) que compreende conceitos básicos de física intuitiva relacionados ao comportamento de objetos. O objetivo é desenvolver ferramentas melhores de IA e fornecer aos estudiosos uma melhor compreensão da cognição infantil.

O sistema chamado ADEPT observa objetos em movimento em determinada cena e prevê como eles devem se comportar a partir de sua física subjacente. A cada quadro do vídeo é emitido um “sinal de surpresa”, que é tanto maior quanto mais improvável seja o comportamento do item observado. 

Dois módulos compõem o experimento. Um extrai informações sobre o objeto (tais como posição, forma e velocidade), enquanto o outro prevê as representações futuras com base em um conjunto de possibilidades. 

Por exemplo: se um objeto está atrás de uma parede, espera-se que ele permaneça lá, a não ser que algum fator externo incida sobre ele. Se a parede cair e o objeto tiver desaparecido, há uma incompatibilidade com um preceito físico. O modelo “pensa” assim: “havia um objeto que, segundo minha previsão, deveria continuar ali. Ele desapareceu. Isso é surpreendente!”. 

Nos testes comparativos da percepção do computador e de humanos, os níveis de surpresa registrados foram semelhantes. Mas curiosamente o sistema se mostrou surpreso em algumas situações em que as pessoas não foram surpreendidas (mas talvez devessem ter sido). Em um vídeo em que um objeto se move a certa velocidade, passa por trás de uma parede e sai imediatamente do outro lado, o que só aconteceria se ele tivesse acelerado de forma impressionante ou teletransportado, duas coisas absolutamente improváveis. As pessoas não deram muita bola para essa incongruência, mas o ADEPT se incomodou. 

Outra característica interessante é que como a identificação da cena observada é feita por geometria aproximada (sem grande atenção aos detalhes), o sistema demonstrou versatilidade para lidar com objetos para os quais não foi treinado. 

“Não importa se um objeto é um retângulo, um círculo, um caminhão ou um pato. A ADEPT apenas vê que há um objeto em uma posição, movendo-se de uma certa maneira, para fazer previsões”, diz Smith. “Da mesma forma, crianças pequenas também parecem não se importar muito com algumas propriedades como a forma ao fazer previsões físicas”.

Na sequência dos estudos, os pesquisadores pretendem se aprofundar na investigação de como as crianças observam e aprendem sobre o mundo, incorporando essas descobertas no ADEPT. “Queremos ver o que mais precisamos construir para entender o mundo como os bebês e formalizar o que sabemos sobre psicologia para criar melhores agentes de IA”, comenta Smith.

Inteligência artificial: uma aliada dos psicólogos e psiquiatras

28/11/2019 Posted by Pessoas, Tecnologia 0 thoughts on “Inteligência artificial: uma aliada dos psicólogos e psiquiatras”

Aplicações de IA vêm sendo desenvolvidas para auxiliar no tratamento de questões da mente humana.

A integração da Inteligência Artificial com a área da saúde é uma tendência em franco desenvolvimento. Já falamos dessa interface aqui no blog, mostrando alguns softwares e dispositivos médicos dotados de IA, do auxílio que os algoritmos podem dar na análise de exames de imagem ou mesmo abordando as previsões para os próximos focos de inovação em saúde.

E é ainda importante destacar que a Saúde é uma área pioneira na análise de dados, com o desenvolvimento, ainda nos anos 1970, da corrente prática chamada de “Medicina Baseada em Evidências” (MBE), antecedendo práticas similares na educação, segurança e outras. Na definição da Revista da Associação Médica Brasileira, a “MBE se traduz pela prática da medicina em um contexto em que a experiência clínica é integrada com a capacidade de analisar criticamente e aplicar de forma racional a informação científica de forma a melhorar a qualidade da assistência médica”. 

As áreas de psicologia e psiquiatria estão entre as que se beneficiam dessa “dobradinha”. Enquanto algumas patologias podem ser diagnosticadas por exames de sangue ou de imagem, as doenças psíquicas têm causas complexas e multifatoriais. Para aumentar a assertividade de prescrições e evitar custos e desgaste aos pacientes, sobretudo em casos refratários (nos quais não há resposta aos tratamentos convencionais), é valioso prever qual tratamento surtirá melhor resultado, com menos efeitos colaterais. Já existem bons exemplos. 

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Yale desenvolveu um modelo baseado em Machine Learning (ML) para identificar quais pacientes alcançariam remissão sintomática após 12 semanas utilizando o antidepressivo Citalopram. Das 164 variáveis coletadas entre os pacientes, concluíram que com apenas 25 eram capazes de identificar com 64,60% de acurácia quais deles responderiam bem ao tratamento. 

Outro trabalho, que envolveu pesquisadores suecos, holandeses e britânicos, apontou com 91,70% de acerto quais pacientes com Transtorno de Ansiedade Social se beneficiariam da Terapia Cognitiva Comportamental, fazendo uso de imagens de ressonância magnética funcional. 

Por sua vez, pesquisadores dos EUA, Canadá e China elaboraram um modelo preditivo que indicou os níveis de resposta de pacientes com esquizofrenia ao antipsicótico Risperidona e outro que, a partir de exames de imagem, identificava pacientes com esse distúrbio com 78,60% de assertividade. 

A IA também pode ser usada como auxiliar dos psicólogos e psiquiatras na avaliação dos tradicionais testes gráficos. Um exemplo é o trabalho desenvolvido no Departamento de Ciência da Computação da Universidade da Virginia que resultou em uma versão digital do teste neuropsicológico do relógio, associada a outras duas atividades, de repetir e recordar palavras. O resultado é um aplicativo simples capaz de promover a triagem de quadros demenciais com 99,53% de acurácia. 

Os exemplos, como vimos, já são muitos e as possibilidades são inúmeras. É a tecnologia, mais uma vez, prometendo auxiliar na busca por mais saúde e bem estar.

Inteligência artificial ameaça criar geração de inúteis

08/11/2019 Posted by Data Science, Pessoas, Tecnologia, Tendências 1 thought on “Inteligência artificial ameaça criar geração de inúteis”

Em palestras pelo Brasil, autor de Sapiens defende acordo global contra uso lesivo da tecnologia.

O  professor e escritor israelense Yuval Harari tornou-se conhecido no mundo inteiro com o sucesso do livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, traduzido em mais de 40 idiomas e com milhões de cópias vendidas. Com outros dois best sellers lançados desde então, o historiador ocupou notícias e conteúdos online nos últimos dias em função de sua primeira visita ao Brasil, onde participa de alguns eventos. 

Harari resume em três vertentes os problemas que a humanidade vai enfrentar no século 21: as mudanças climáticas, os avanços da biotecnologia/bioengenharia e a ascensão da inteligência artificial. O desenvolvimento das tecnologias e seu impacto na sociedade contemporânea é assunto central e recorrente tanto em seus escritos quanto nas conferências que têm proferido. 

Uma das preocupações que ele destaca é um assunto no qual já tocamos aqui: o fato de que a tecnologia provoca mudanças constantes e significativas no mercado de trabalho e possivelmente criará uma massa de pessoas sem utilidade, do ponto de vista econômico e financeiro. “Se a maior luta do século 20 foi contra a exploração, a maior luta do século 21 será contra a irrelevância. Por isso os governos têm que proteger as pessoas”, afirmou em uma palestra no encerramento da 5ª Semana de Inovação, realIzada pela Escola de Administração Pública (Enap), em Brasília. Ele completa, em outro tema abordado aqui pelo blog: 

“O risco é que a revolução da inteligência artificial resulte em algo como a revolução industrial do século XIX: desigualdade extrema entre alguns países que dominam a economia global e outros que colapsam completamente, porque seu principal ativo de mão de obra manual barata se torna irrelevante”

O valor dos dados e sua importância estratégica é outra questão chave para o escritor. A combinação de avanços no domínio da biologia humana com o poder tecnológico digital pode resultar num “hackeamento” dos indivíduos. “É possível criar algoritmos que nos conhecem melhor que nós, que podem nos hackear e manipular nossos sentimentos e nossos desejos. E eles não precisam ser perfeitos, apenas nos conhecer melhor. E isso não é difícil porque muitos de nós não se conhecem muito bem”. 

Em entrevista ao El País em 2018, traçou um interessante paralelo entre algumas forças capazes de controlar as pessoas ao longo do século 20, tais como os partidos fascistas dos anos 1930, a KGB e os grandes conglomerados atuais. As organizações no século passado conseguiam estabelecer altos níveis de controle, mas não tinham tecnologia para seguir e manipular cada indivíduo pessoalmente. Hoje isso já é possível (e acontece). “Já estamos vendo como a propaganda é desenhada de forma individual, porque há informação suficiente sobre cada um de nós. Se você quer criar muita tensão dentro de um país em relação à imigração, coloque uns tantos hackers e trolls para difundir notícias falsas personalizadas. Para a pessoa partidária de endurecer as políticas de imigração você manda uma notícia sobre refugiados que estupram mulheres. E ela aceita porque tem tendência a acreditar nessas coisas. Para a vizinha dela, que acha que os grupos anti-imigrantes são fascistas, envia-se uma história sobre brancos espancando refugiados, e ela se inclinará a acreditar. Assim, quando se encontrarem na porta de casa, estarão tão irritados que não vão conseguir estabelecer uma conversa tranquila. Isso aconteceu nas eleições dos Estados Unidos de 2016 e na campanha do Brexit.”

A aposta do escritor para a condução desses grandes desafios da humanidade está no diálogo e na cooperação. Não há, segundo ele, oposição entre as ideias de nacionalismo e globalização. Os estados podem e devem garantir sua soberania e liberdade, mas devem se unir para evitar que as grandes corporações se apoderem e façam mau uso dos dados, o bem mais valioso do século 21. “Precisamos de um acordo global. E isso é possível. Não construindo muros, como está na moda, mas construindo confiança. No entanto, estamos na direção oposta neste momento.”