Inteligência artificial a serviço do “Ctrl+c Ctrl+v”

19/02/2020 Posted by Tecnologia 0 thoughts on “Inteligência artificial a serviço do “Ctrl+c Ctrl+v””

Ferramentas que alteram textos e driblam detectores de plágio levantam questões éticas acerca do uso da inteligência artificial no meio acadêmico.

 

“Nessa cultura de soluções prontas, onde fica a originalidade? Será que a tendência a longo prazo é o pensamento crítico ser substituído pela inteligência artificial?”. O questionamento é de Julia Baranova, economista russa radicada no Brasil que, ao começar a elaborar um artigo, buscou ferramentas que pudessem auxiliá-la na redação, em inglês. Após pesquisar por “ferramentas para redação de artigos acadêmicos” encontrou, além de sites que padronizam referências bibliográficas e transcrevem áudios, alguns já conhecidos detectores de plágio.  Estes detectores ganharam espaço em um mundo em que o “Control c Control v” tornou-se uma praga (para a infelicidade de seu criador, o cientista Larry Tesler, a quem prestamos nossa homenagem: Ele faleceu dia 17/02.). 

Não foi um detector de plágio o que surpreendeu a economista Julia Baranova, mas sim os serviços de inteligência artificial que fazem exatamente o contrário: “reescrevem” textos de modo a disfarçar a cópia. É isso mesmo. Além de haver sistemas capazes de gerar textos com grande semelhança aos escritos por humanos, como o GPT-2, do qual já falamos aqui, estão disponíveis várias opções de “robôs” que driblam os detectores fazendo paráfrases, substituindo palavras por sinônimos e alterando a estrutura de frases. 

Clever Spinner, Spinbot, Plagiarisma Spinner e Word Spinner são algumas das plataformas encontradas. O último da lista, com versão em português, promete em sua página inicial auxiliar o usuário a “criar textos autênticos para sites ou trabalhos acadêmicos”, afirma (no rodapé da homepage) se posicionar totalmente contra o plágio e se exime de responsabilidades relacionadas a qualquer infração à legislação de direitos autorais. Para ilustrar, uma animação de 1 minuto no site conta a história de Felipe, que precisava fazer seu TCC mas não conseguia por falta de tempo para estudar sobre o assunto e escrever. Alerta de spoiler: após conhecer o spinner, Felipe consegue concluir seu trabalho “super rápido” e se formar.

Os resultados demonstrados por algoritmos que geram, editam ou parafraseiam textos impressionam, mas levantam questões de cunho ético. A existência de serviços como os spinners é, na opinião do ex-ministro da Educação, ex-diretor de avaliação da Capes e professor de ética e filosofia política na USP, Renato Janine Ribeiro, não apenas um sinal de desonestidade intelectual, mas também de que existe demanda nesse campo. “Diante das pressões para publicação, abre-se margem para a produção de artigos não necessariamente originais e sem relevância científica. Estamos numa situação de excesso de escrita, de qualidade questionável, e falta de leitura”, comenta em reportagem da Folha de São Paulo. 

Rodrigo Turin, historiador e professor associado da Unirio, completa a crítica: “Estamos vendo a emergência de uma ‘escrita algorítmica’, um modo de produção textual que prescinde dos elementos de criatividade e autoria. Esses programas reatualizam, a seu modo, elementos da retórica: organizam e dispõem uma série de lugares-comuns e ideias prontas em novas combinações, jogando com um critério de verossimilhança pré-estabelecido. Mas, ao contrário da retórica clássica, intencionalidade, inteligência e criatividade agora são terceirizados para um programa de computador”

O caminho que parece ser o mais equilibrado entre o auxílio que as máquinas podem dar na elaboração de um texto e os limites éticos relacionados à autoria é a utilização de ferramentas que, a partir da inserção de material textual elaborado pelo próprio autor, sugiram correções ou apontem melhorias possíveis. 

Para Mariana Rutigliano, gerente de inovação da Turnitin, empresa que desenvolve um software detector de plágio, se a inteligência artificial é um parceiro no processo intelectual e criativo, ótimo. “O ponto negativo é o uso indevido de quem busca respostas prontas. Certamente a construção do conhecimento envolve diálogo com outros autores, a revisão bibliográfica. Mas o autor precisa trazer algo novo e original. Ferramentas não podem ser ‘muletas’”, comenta.

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *